domingo, 5 de fevereiro de 2012

Cinema ajuda Camboja reconciliar passado com presente e futuro

Foram precisos 33 anos para que ela conseguisse pegar papel e caneta e redigir o roteiro que mudaria tudo. Mas para a sobrevivente do Khmer Vermelho Khauy Sotheary, produzir um filme sobre as experiências vividas por sua mãe durante aquele período brutal, ao invés de suas próprias, proporcionou à professora universitária de 47 anos uma compreensão ainda mais profunda do passado de sua família.
"Lost Loves" (amores perdidos) é o primeiro longa-metragem sobre o Khmer Vermelho feito no Camboja em mais de 20 anos, e sua chegada coincide com uma audiência chave no tribunal de crimes de guerra apoiado pela ONU.
É a primeira vez em 30 anos que o regime é discutido tanto e tão abertamente. E isso, segundo especialistas, comprova que o Camboja está realmente a caminho da reconciliação.
"Nós nos afastamos da história do regime porque tanto tempo já se passou, mas a memória --da dor, da fome, da separação-- está sempre presente", diz Sotheary, falando em um café em sua cidade natal, Phnom Penh. "Embora agora vivamos em paz e tenhamos comida sobre a mesa, precisamos manter esta história viva. Precisamos transmiti-la."
"Lost Loves" foca a mãe de Sotheary, que perdeu sete membros de sua família --incluindo seu pai, marido e quatro filhos-- durante o regime comunista de linha dura de 1975-79, que matou cerca de 2 milhões de pessoas.
Com elenco e equipe técnica inteiramente cambojanos, incluindo a própria Sotheary como protagonista, o filme estreou em 2010 no Festival Internacional de Cinema do Camboja, deixando a plateia fascinada, e na semana passada finalmente chegou aos cinemas da capital, Phnom Penh. A crítica o vem descrevendo como "inovador" e "belo".
ÚNICA MANEIRA
Fazendo uso intensivo do drama cambojano tradicional, o filme mostra o cotidiano das pessoas sob o Khmer Vermelho de maneiras impactantes e emocionalmente provocantes.
Em uma cena, Amara, destituída de sua identidade "capitalista" e trajando a roupa preta comunista e revolucionária, arrasta outro lavrador para o hospital enquanto sofre um aborto espontâneo causado pelo trabalho exaustivo nos arrozais. Seu sangue mancha o capim verde do lugar onde eles comem, dormem e labutam.
"Esta é a única maneira de realmente transmitir a história para as pessoas daqui", explica o diretor Chhay Bora, 49 anos, que perdeu dois irmãos às mãos do regime e diz que um documentário teria um efeito menos profundo. "Um 'docudrama' (fusão de documentário e drama) realmente transmite a experiência, fazendo o espectador sentir-se dentro dela. Ele se engaja emocionalmente."
Sotheary --que sobreviveu ao regime, apesar de sofrer desnutrição crônica e um estado permanente de desespero-- diz que saúda sua mãe "por sua força e determinação de sobreviver ao que fez". "Sendo eu mesma mãe hoje em dia, não sei se eu teria a mesma força", diz a atriz e produtora.
Bora e Sotheary, ambos professores universitários, escolheram a juventude cambojana como público-alvo do filme e vêm fornecendo ingressos com descontos a escolas e universidades, para incentivar o interesse dos estudantes.
O casal pretende exibir o filme em províncias fora da capital. "Os jovens precisam assistir a uma história, para compreender o que leem", diz Bora. "Um filme como este os ajuda a entender melhor o que leem nos livros didáticos."
Bora e Sotheary foram beneficiados em parte por um movimento recente no sentido de ensinar a história do genocídio para alunos e o grande público no mais famoso presídio e centro de tortura do país, o S-21 ou Tuol Sleng (cujo antigo diretor, Kaing Guek Eav, conhecido como camarada Duch, foi condenado em 2010 por crimes de guerra e sentenciado a 35 anos de prisão).
RECONCILIAÇÃO
Organizadas pelo principal centro cambojano de pesquisas sobre o Khmer Vermelho, o Centro de Documentação do Camboja (DC-Cam), as palestras promovidas duas vezes por semana dissecam a ascensão e queda de um governo que via a educação como doença da elite e converteu muitas das escolas do país em prisões ou armazéns.
A história do genocídio faz parte do currículo entre a 9ª e 12ª série no Camboja, mas muitos alunos duvidam da extensão das atrocidades cometidas, e alguns professores evitam tratar do assunto em sala de aula, "em parte porque não compreendem o período e não sabem como integrá-lo ao currículo", diz a historiadora oral Farina So, que faz palestras no S-21.
"Muitos pais e avós não gostam de comentar o que aconteceu, porque é um assunto tão doloroso", ela explica. "Mas, se não falarmos sobre isso em casa e não falarmos nas comunidades, como as crianças vão poder entender a história? O que está em jogo aqui é a reconciliação do passado com o presente e o futuro."
O DC-Cam treinou 3.000 professores para darem aula sobre o genocídio. O treinamento é feito em base com a ajuda de manuais, cuja produção foi financiada independentemente, que incentivam os professores a fazer perguntas aos alunos, como por exemplo "como seria a vida hoje se o dinheiro e o livre mercado fossem abolidos?" e "de que forma o regime afetou a vida no Camboja hoje?".
Mas a organização sabe que a tarefa que enfrenta é árdua. "Acredito que parte do que você conta aconteceu mesmo, mas não tudo", falou o estudante secundarista Luy Srey Mech, 17, numa palestra recente no S-21.
"Meus bisavós foram mortos na revolução, mas isso foi há muito tempo. Agora que estou vendo essas fotos, esses vídeos, estou começando a entender um pouco mais."
Youk Chhang, um importante pesquisador sobre o Khmer Vermelho, diz que seria fácil se desanimar diante de uma juventude tão aparentemente indiferente, mas que isso seria um erro grave.
"O genocídio é algo muito difícil expressar em palavras. Forçar ou esperar que as pessoas 'acreditem' que aconteceu é injusto e talvez represente uma obsessão excessiva com o passado", diz ele, observando que o fato mais novo a ter surgido a partir deste novo diálogo "é a própria comunicação".
"O diálogo que estamos vendo hoje não existia 15 anos atrás", ele comenta. "O tribunal finalmente trouxe o Khmer Vermelho para a esfera pública, criando um debate público nacional. Em toda parte há alegria compartilhada, desconfiança, tristeza, esperança. Essa questão, isoladamente, incentivou o surgimento de uma cultura do diálogo que até agora não existia na sociedade cambojana --e isso quer dizer que a discussão na sociedade é mais construtiva que a discussão no tribunal. Finalmente as pessoas estão refletindo sobre o sentido da justiça e a noção de reconciliação."
Tradução de CLARA ALLAIN

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